segunda-feira, 11 de novembro de 2019
domingo, 29 de setembro de 2019
A estranha epidemia de dança
A estranha epidemia de dança
Em 1518, em Estraburgo, uma pequena vila francesa,
uma
mulher chamada Fao Troffea,
sem
motivo aparente,
começou
a dançar sem parar em uma das ruas.
Após
três dias dançando sem descanso,
outras
pessoas começaram a dançar juntas.
Quatrocentas
pessoas se juntaram aos dançantes
e
dançavam sem interrupção.
Dançaram
além da conta, dançaram tanto
que
muitos chegaram a morrer de exaustão.
Médicos
e padres foram chamados
mas
a dança continuava dia e noite, noite e dia.
Chegavam
a morrer quinze pessoas por dia
mas
a dança continuava.
Só
pararam de dançar quatro meses depois
quando
muitos morreram e os outros não aguentaram
mais.
sábado, 20 de julho de 2019
Tributo a Evaldo Rosa dos Santos
Tributo a Evaldo Rosa dos Santos
Foram oitenta tiros de fuzil.
Às cinco horas da tarde em ponto.
Mas todos os relógios se
quebraram.
Todos os sinos se calaram.
Às cinco da tarde em ponto.
Aconteceu. Como um fenômeno da
natureza.
Ninguém é culpado. Os fuzis
atiraram sozinhos.
O poeta não serve para nada.
Isso é a banalidade do mal. A
vida não tem importância.
Com jeito vai e sem jeito também.
Fugiu do lobo, foi devorado pelas
ovelhas.
(As ovelhas atiram com fuzil.)
Solidariedade é você enfiar o dedo
na minha ferida,
depois eu enfio na sua.
Ai, que terríveis cinco horas da
tarde.
Todos os relógios se calaram
com os oitenta tiros de fuzil.
Nenhuma pomba branca voa mais.
Choveu na cidade como um dilúvio.
Eram lágrimas.
O músico é um pássaro com a garganta
cortada e canta.
O seu canto corta a pele do dia
como o diamante.
terça-feira, 12 de março de 2019
Deus criou o homem de barro - não da lama de Brumadinho
Deus criou o homem do barro
Deus criou o
homem do barro.
É por isso que
o homem gosta de lama
e morre
soterrado na lama:
a ganância
humana
leva poucos
homens
a desprezar a
vida de tantos outros.
É Caim matando
Abel
desde o começo
dos tempos.
Deus deve olhar
de lado
com um certo
arrependimento
dessa fraqueza
de sua obra.
O Grande Oleiro
olha os vasos de barro
com defeito, a
um canto da oficina.
Melhor seria se
fossem ainda lama.
sábado, 20 de outubro de 2018
Gesto poético - poesia para a paz
Acaba de sair a antologia Gesto Poético, com poemas pela paz de vários países, como Canadá, Argentina, Peru, Chile, Israel, Cuba, Bolívia, Colômbia, Panamá, Equador, Uruguai, República Dominicana, México, Porto Rico, Espanha, Venezuela, Itália, Moçambique e Brasil. A Sônia e eu estamos representando o Brasil, páginas 42 e 74. Ficou um livro belíssimo, sobre o tema mais importante hoje, a paz.
https://issuu.com/sureditoresdigital/docs/gesto-poetico-2017
sábado, 22 de setembro de 2018
Parada em Ventania - contos
https://www.amazon.com.br/Parada-em-Ventania-Jos%C3%A9-Brand%C3%A3o-ebook/dp/B07HFDBHDR?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&crid=2GDZG6VWTUUPF&keywords=jose+brandao&qid=1537281477&sprefix=jose+brandao%2Caps%2C265&sr=8-2&ref=sr_1_2
Parada em Ventania lembra os livros de ficção fantástica latino-americana com seus personagens tão sofridos que parecem viver em uma outra realidade.
É o menino aleijado das pernas que conhece o mundo só por ouvir a irmã contar e pela passagem irregular do trem. É o menino que vai embora da roça, despedindo-se do seu bezerro no pasto, durante a noite. É o menino assistindo ao pai tirar os espinhos do ouriço do cachorro. São as crianças órfãs que assistem ao pai armando a Árvore de Natal, sofrendo com a saudade da mãe.
Parada em Ventania lembra os livros de ficção fantástica latino-americana com seus personagens tão sofridos que parecem viver em uma outra realidade.
É o menino aleijado das pernas que conhece o mundo só por ouvir a irmã contar e pela passagem irregular do trem. É o menino que vai embora da roça, despedindo-se do seu bezerro no pasto, durante a noite. É o menino assistindo ao pai tirar os espinhos do ouriço do cachorro. São as crianças órfãs que assistem ao pai armando a Árvore de Natal, sofrendo com a saudade da mãe.
É o marido que encontra a mulher na cama com outro, que persegue, mata e
depois foge, mas encontra na estação ferroviária a vendeta da mãe
desesperada. É a mulher que enlouquece de desejo e solidão, dividida
entre o amor de dois irmãos. São os irmãos que se amam e são castigados
pelos pais que pensam que somente um sofrimento como o de Cristo poderia
purgar tal pecado. É o menino que mata o pai com um martelo para
proteger a mãe com quem dorme e satisfaz seus precoces e primitivos
desejos sexuais.
É a mulher que acorda na solidão em que vive procurando sinal de vida e, como não encontra, julga estar morta. É a cidade inteira tomada pela lepra, num tempo recordado incrivelmente com dor e saudade. É o jovem assistindo à primeira morte de sua vida, com sua estranheza como toda morte, talvez maior do que qualquer morte. É o homem que se suicida pensando que matara o amigo numa bebedeira, amigo que aparece na igreja durante a missa, com uma enxó na cabeça, mas muito vivo. É o casal cuidando da prostituta linchada pelas mulheres da pequena cidade, em sua cruel vingança. É a praga dos urubus que cobrem o céu da cidadezinha. É a peste que dizima todos os bichos do lugar e o cachorro do andarilho louco também atacado pela peste.
É a mocinha e seu canarinho encantado como se vivesse num mundo mágico. São os irmãozinhos que brigam por causa de uma abelha. É um cavalo encantado nas colinas da lua e o pai do menino que se encanta também quando busca o cavalo. É o menino que evita que os urubus roubem a carne-seca com pedradas certeiras de estilingue. É o amor por uma pombinha aleijada. É o menininho que contempla extasiado um velhinho e um pato nadando no lago.
É o matador fazendo a sua tocaia e a sua vítima que luta pela vida. É um cavalo ruim como o diabo e seu dono também ruim. É o homem que lembra uma vingança cruel de marido traído que assistiu quando criança É o amor de uma cadelinha feia e uma menininha feia também, e o padre que persegue a cadelinha, que é mais rápida no gatilho. É uma cena amorosa sobre um túmulo.
É a mulher que acorda na solidão em que vive procurando sinal de vida e, como não encontra, julga estar morta. É a cidade inteira tomada pela lepra, num tempo recordado incrivelmente com dor e saudade. É o jovem assistindo à primeira morte de sua vida, com sua estranheza como toda morte, talvez maior do que qualquer morte. É o homem que se suicida pensando que matara o amigo numa bebedeira, amigo que aparece na igreja durante a missa, com uma enxó na cabeça, mas muito vivo. É o casal cuidando da prostituta linchada pelas mulheres da pequena cidade, em sua cruel vingança. É a praga dos urubus que cobrem o céu da cidadezinha. É a peste que dizima todos os bichos do lugar e o cachorro do andarilho louco também atacado pela peste.
É a mocinha e seu canarinho encantado como se vivesse num mundo mágico. São os irmãozinhos que brigam por causa de uma abelha. É um cavalo encantado nas colinas da lua e o pai do menino que se encanta também quando busca o cavalo. É o menino que evita que os urubus roubem a carne-seca com pedradas certeiras de estilingue. É o amor por uma pombinha aleijada. É o menininho que contempla extasiado um velhinho e um pato nadando no lago.
É o matador fazendo a sua tocaia e a sua vítima que luta pela vida. É um cavalo ruim como o diabo e seu dono também ruim. É o homem que lembra uma vingança cruel de marido traído que assistiu quando criança É o amor de uma cadelinha feia e uma menininha feia também, e o padre que persegue a cadelinha, que é mais rápida no gatilho. É uma cena amorosa sobre um túmulo.
sexta-feira, 7 de setembro de 2018
Luzia
LUZIA
O crânio sobreviveu a Luzia por milhares de anos,
não sobreviveu ao fogo.
Não existiam museus, não existiam políticos,
o homem poderia ser violento no tempo de Luzia,
mas era inocente.
Aquele ainda era um tempo de inocência.
Pobre este tempo nosso
em que não existe um resquício de inocência
fora aquela das menininhas
e das estrelas alfa.
No tempo de Luzia o homem era feliz,
não faltava nem um guizo ou um dente no pescoço
para anunciar a felicidade.
Hoje o homem clama por justiça
como um bem precioso e longínquo.
Sempre que há clamor por justiça
há falta de justiça.
No tempo de Luzia não se sabia o que era justiça,
não era necessário.
Hoje o crânio de Luzia sobreviveu ao corpo de ontem
e ao museu queimado.
Luzia é uma ideia e as ideias não se queimam.
Os homens passam, mas as ideias ficam.
Luzia é a ideia da pureza bruxuleando
neste nosso tempo escuro.
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