quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

HERANÇA







       HERANÇA


Meu avô e meu pai, lado a lado, refletidos
um no outro, consumidos e continuados.
Quem sou, o meu ser-estar no mundo vem desses dois,
do seu olhar sobre a família, os cafezais, as plantações, o gado.

Imagino meu avô e meu pai como Abraão e Isaac.
O sacrifício de Isaac foi consumado
apesar da misericórdia de Deus, ou por isso mesmo.
Abraão se desdobra em Isaac (Marcílio, Luiz), em brasa.

A brasa que traziam já no nome, Brandão,
queimando sob a cinza, na noite do tempo
e além dela, na chama das noites e dos dias sofridos.
Sofreram, como ainda sofremos, altivos, os trabalhos dos dias.

Herdarão a terra, estava escrito. Depois perdemos a terra,
que trazemos na alma e para onde voltaremos como se volta ao lar.
Somos grandes, sabemos: os nossos maiores eram imensos.
Meu avô e meu pai, eu e meu filho caminhamos na nostalgia do sangue.






sábado, 1 de dezembro de 2012

POEMA SOBRE O INCÊNCIO NA FAVELA DE PARAISÓPOLIS



Incêndio no Paraíso.
A árvore do bem e do mal foi carbonizada.
Adão e Eva não têm nem folhas de figueira
para cobrir as partes íntimas.

O anjo ergue a espada de fogo
e expulsa os pobres do lar.
Adão e Eva não tinham o que comer,
não tinham o que vestir,
agora não têm mais onde morar.

As casas, os barracos, as árvores do Paraíso
contorcem-se de dor.
Até as serpentes e os ratos fogem
do Paraíso em chamas.

(Nada mais a dizer.
A fumaça consumiu as palavras.
Amanhã recomeçará a mesma história.)







quarta-feira, 21 de novembro de 2012

O HOLOCAUSTO COMO CONDIÇÃO HUMANA

                                                                             Meninos palestinos e israelenses brincam juntos.  Foto Rivanna Miller IPS





O holocausto como condição humana


O palestino e o judeu dão-se as mãos
através da cerca de arame farpado.
(Nos gabinetes seus líderes estudam
como exterminá-los, um a um.)


Gregório Vaz




segunda-feira, 15 de outubro de 2012

COMO APRENDI A LER E ESCREVER

                                                                 A minha primeira escolinha, vista através dos galhos desfolhados da figueira.



COMO APRENDI A LER E ESCREVER


Escrevi num poema em prosa que “saí analfabeto da escolinha de sítio da minha infância”. Escrevo esta crônica neste Dia dos Professores para desfazer a ideia errada que deixei entrever a quantos leram aquele poema. Devo esta homenagem a minha primeira professora, essa heroína que deu a vida para tentar o impossível: alfabetizar-me.
A Dona Conceição não tem culpa de não ter conseguido. Eu é que tinha uma enorme dificuldade de aprendizagem.
Eu tinha dificuldade para ler e escrever, algo semelhante ao que hoje chamamos de dislexia. Esse era o meu problema, que eu superei com exercícios de dicção – embora não fosse dificuldade para falar o que eu tinha. Um enigma.
Apenas há uns dez anos a dislexia está sendo bem estudada. Em 1954 e 1955, a Dona Conceição não poderia saber como lidar com o caso. Se nem os professores de hoje sabem!
Eu sei, mas nem queria contar, porque ninguém me acreditará. Estava na terceira série ginasial e era na prática um analfabeto. Comecei meu tratamento pondo pedregulhos na boca, como Demóstenes fazia para ensaiar os seus discursos.
Não conseguia articular bem os fonemas, então pus um lápis atravessado na boca: a dificuldade para articular ainda era enorme, mas doía menos do que com os pedregulhos.
Falei textos e mais textos de forma ininteligível. Aos poucos, agora sem o lápis entre os dentes, de forma mais compreensível. De repente eu estava entendendo o que lia.
Foi como o “estalo de Vieira”. Sem mais nem menos (mas só eu sei quanto custou esse “sem mais nem menos”), eu me transformei, não num gênio como o Padre Vieira, mas em um cara inteligente.
Há quem explique o “estalo de Vieira” como uma pedrada na cabeça que lhe abriu a mente, tornando-o de idiota em gênio. No meu caso, não foi uma pedrada, mas várias pedras na boca, e depois um lápis – já que a minha dificuldade era escrever.
Eu era meio estúpido; quem me conheceu antes e depois, viu em mim lampejos de gênio.
A opinião dos parentes não vale: veem com os olhos do amor, nunca viram a minha estupidez intelectual.
A Dona Conceição dizia que eu tinha “letra de galinha”. É uma característica dos disléxicos: escrevem como as galinhas ciscando, só produzem borrões, tanto ciscam no mesmo lugar.
E era o tempo em que se escrevia molhando a pena no tinteiro, uma pena que vivia se abrindo no meio...
“A sua mãe se mata de trabalhar, e você...” – me dizia a Dona Conceição. Eu, como qualquer menino de sete ou oito anos, não tinha noção do que era “se matar de trabalhar” – mas também não tinha noção do que lia ou escrevia.
Ainda hoje, com mais de 60 anos de idade, de vez em quando me distraio e não entendo o que estou lendo, leio uma palavra com outro significado, ou com outras letras, com outra posição das mesmas letras, sem nenhum sentido, ou com um sentido totalmente diferente daquilo que estava escrito.
Ou escrevo palavras que nem eu entendo: “ciosa” ou “sacio” ou “sioca” em lugar de “coisa”; “porco” ou “cropo” ou “proco” em lugar de “corpo”.
Eu achava, que “não tinha jeito” para matemática ou qualquer ciência exata. Acontece que até hoje altero involuntariamente a ordem dos algarismos ou outros símbolos. Leio 862 ou 682 ou 826 quando está escrito 268...
Com quinze anos de idade, eu lia – atrapalhadamente. O bastante para repetir vezes sem conta poemas e mais poemas – até, como por encanto, passar a lê-los com desenvoltura, entendendo-os, sentindo-os.
Dona Conceição conseguiu sua proeza meio tardiamente, mas conseguiu. Foi pensando nela que eu consegui a grande façanha de aprender a ler e escrever.
Com quinze anos de idade escrevi meu primeiro poema e minha primeira crônica. E até hoje continuo a rabiscar um texto ou outro, nem que seja apenas para provar a mim mesmo que sei escrever.

José Carlos Brandão







segunda-feira, 8 de outubro de 2012