sábado, 20 de julho de 2019

Tributo a Evaldo Rosa dos Santos





Tributo a Evaldo Rosa dos Santos


Foram oitenta tiros de fuzil.
Às cinco horas da tarde em ponto.
Mas todos os relógios se quebraram.
Todos os sinos se calaram.
Às cinco da tarde em ponto.
Aconteceu. Como um fenômeno da natureza.
Ninguém é culpado. Os fuzis atiraram sozinhos.
O poeta não serve para nada.
Isso é a banalidade do mal. A vida não tem importância.
Com jeito vai e sem jeito também.
Fugiu do lobo, foi devorado pelas ovelhas.
(As ovelhas atiram com fuzil.)
Solidariedade é você enfiar o dedo na minha ferida,
depois eu enfio na sua.
Ai, que terríveis cinco horas da tarde.
Todos os relógios se calaram
com os oitenta tiros de fuzil.
Nenhuma pomba branca voa mais.
Choveu na cidade como um dilúvio. Eram lágrimas.
O músico é um pássaro com a garganta cortada e canta.
O seu canto corta a pele do dia como o diamante.







terça-feira, 12 de março de 2019

Deus criou o homem de barro - não da lama de Brumadinho




Deus criou o homem do barro


Deus criou o homem do barro.
É por isso que o homem gosta de lama
e morre soterrado na lama:
a ganância humana
leva poucos homens
a desprezar a vida de tantos outros.
É Caim matando Abel
desde o começo dos tempos.
Deus deve olhar de lado
com um certo arrependimento
dessa fraqueza de sua obra.
O Grande Oleiro olha os vasos de barro
com defeito, a um canto da oficina.
Melhor seria se fossem ainda lama.





sábado, 22 de setembro de 2018

Parada em Ventania - contos

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Parada em Ventania lembra os livros de ficção fantástica latino-americana com seus personagens tão sofridos que parecem viver em uma outra realidade.

É o menino aleijado das pernas que conhece o mundo só por ouvir a irmã contar e pela passagem irregular do trem. É o menino que vai embora da roça, despedindo-se do seu bezerro no pasto, durante a noite. É o menino assistindo ao pai tirar os espinhos do ouriço do cachorro. São as crianças órfãs que assistem ao pai armando a Árvore de Natal, sofrendo com a saudade da mãe.

É o marido que encontra a mulher na cama com outro, que persegue, mata e depois foge, mas encontra na estação ferroviária a vendeta da mãe desesperada. É a mulher que enlouquece de desejo e solidão, dividida entre o amor de dois irmãos. São os irmãos que se amam e são castigados pelos pais que pensam que somente um sofrimento como o de Cristo poderia purgar tal pecado. É o menino que mata o pai com um martelo para proteger a mãe com quem dorme e satisfaz seus precoces e primitivos desejos sexuais.

É a mulher que acorda na solidão em que vive procurando sinal de vida e, como não encontra, julga estar morta. É a cidade inteira tomada pela lepra, num tempo recordado incrivelmente com dor e saudade. É o jovem assistindo à primeira morte de sua vida, com sua estranheza como toda morte, talvez maior do que qualquer morte. É o homem que se suicida pensando que matara o amigo numa bebedeira, amigo que aparece na igreja durante a missa, com uma enxó na cabeça, mas muito vivo. É o casal cuidando da prostituta linchada pelas mulheres da pequena cidade, em sua cruel vingança. É a praga dos urubus que cobrem o céu da cidadezinha. É a peste que dizima todos os bichos do lugar e o cachorro do andarilho louco também atacado pela peste.

É a mocinha e seu canarinho encantado como se vivesse num mundo mágico. São os irmãozinhos que brigam por causa de uma abelha. É um cavalo encantado nas colinas da lua e o pai do menino que se encanta também quando busca o cavalo. É o menino que evita que os urubus roubem a carne-seca com pedradas certeiras de estilingue. É o amor por uma pombinha aleijada. É o menininho que contempla extasiado um velhinho e um pato nadando no lago.

É o matador fazendo a sua tocaia e a sua vítima que luta pela vida. É um cavalo ruim como o diabo e seu dono também ruim. É o homem que lembra uma vingança cruel de marido traído que assistiu quando criança É o amor de uma cadelinha feia e uma menininha feia também, e o padre que persegue a cadelinha, que é mais rápida no gatilho. É uma cena amorosa sobre um túmulo.




sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Luzia





LUZIA

O crânio sobreviveu a Luzia por milhares de anos,
não sobreviveu ao fogo.
Não existiam museus, não existiam políticos,
o homem poderia ser violento no tempo de Luzia,
mas era inocente.
Aquele ainda era um tempo de inocência.
Pobre este tempo nosso
em que não existe um resquício de inocência
fora aquela das menininhas
e das estrelas alfa.
No tempo de Luzia o homem era feliz,
não faltava nem um guizo ou um dente no pescoço
para anunciar a felicidade.
Hoje o homem clama por justiça
como um bem precioso e longínquo.
Sempre que há clamor por justiça
há falta de justiça.
No tempo de Luzia não se sabia o que era justiça,
não era necessário.
Hoje o crânio de Luzia sobreviveu ao corpo de ontem
e ao museu queimado.
Luzia é uma ideia e as ideias não se queimam.
Os homens passam, mas as ideias ficam.
Luzia é a ideia da pureza bruxuleando
neste nosso tempo escuro.






quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

O ATOR






O ATOR


Um homem (morador de rua?
Sobrevivente por definição)
deitou-se no meio da avenida
em frente à Câmara Municipal.

O motorista do ônibus freou
a dois passos da cabeça do pobre.
A população suspirou aliviada.

O homem levantou-se,
levou a mão ao chapéu
(que não tinha)

e fez uma vênia demorada e pausadamente
agradecendo os aplausos
(que não vieram).

Alguém quis esganá-lo, alguém
pensou na  polícia (apenas pensou )
e o caso foi esquecido. 

E eu escrevo este poema
para que viva por alguns minutos mais.





quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

HOMENAGEM A FRANZ KRAJCBERG





HOMENAGEM A FRANZ KRAJCBERG


A árvore secou no alto da montanha
e todas as árvores
prostraram-se
em pranto
copiosamente
em pranto

morreu o barbudo das pedras

                       agora estão definitivamente sozinhas