domingo, 27 de maio de 2012

O ouriço

           
Estou grudado no alto da porteira da mangueira das vacas. Lá embaixo o Duque late feito doido.  Avança, negaceia, avança de novo – uma bruta valentia.  É um ouriço acuado junto ao mourão da porteira. Ele rodopia, se eriça todo – coisinha indefesa, só tentando fugir do ataque. Mas de cada ataque o Duque é que foge, ganindo – um choro longo e fino de doer na gente.
            Estou tremendo inteirinho aqui escanchado na tábua de cima da porteira. O Duque não pode morder o ouriço; mas não desiste. Que dó que isso dá! Bicho besta, por que não vai embora? Aí, teimando e se machucando. Também, que mal que fez o coitado do ouriço, esse bichinho inocente. An? Inocente? Um monstro que caiu em cima do Duque, todo escalavrado.
Um tiro de repente. E a voz do meu pai:
– Menino, desce daí!
E eu desço, fazer o quê?
– Por aí não, pelo outro lado.
– Por quê?
– Desce logo.
Eu sei que não tem espinhos no chão. Ele deve estar cismado; eu obedeço.
– Vai lá dentro buscar um alicate. Corre.
– Alicate?       
– Tem que ficar perguntando as coisas? Vai, vai duma vez.
Eu obedeço. O Duque está lá encolhido num canto da cerca. Geme, geme baixinho.
Meu pai sabe fazer as coisas direito, por que então não trata do Duque, fica pedindo alicate?
– O que você quer?
– O alicate, mãe.
– Por que você quer alicate?
– O pai que quer, mãe.
– Põe no lugar depois, hein?
– Sei.
– E não revira esse baú.
Pego o alicate, levo correndo. Na porta da cozinha escorrego, me esparramo no chão.
– Cuidado! Sempre estabanado. Não precisa correr tanto.
Levanto, saio mancando. Tinha que ir apressado. É que me lembrei do Duque.
            Meu pai está agachado. Está fazendo um carinho, consolando, passando a mão na barriga do Duque; com a outra mão segura firme no pescoço, agarrando a pele.
Não fala nada. Pega o alicate, segura mais forte, põe o joelho prendendo bem o Duque. Pacientemente, devagar, com mão sábia, depois num arrancão tira espinho por espinho.
O Duque deixa, nem se mexe. Só chora, um chorinho desconsolado, lá do fundo. O focinho pingando sangue.
Depois, some um tempo. Não muito; na hora da janta está lá num canto da cozinha.
Minha mãe põe a sopa de mandioca na mesa. Oba. Comemos com uma senhora satisfação. Mas logo meu pai se irrita, está olhando o Duque:
– Bicho imprestável!
– Ele não tem culpa, pai.
– Por que é que não tem?
Lá no seu cantinho, aqueles olhos de dor. A gente percebe, uma aflição bem de dentro.
            – E o ouriço, pai?
            – Que é que tem?
            – Que é que o senhor fez com ele?
            – Ara! Nada.
Terminamos de comer sem vontade, a sopona fumegando numa gostosura.
Não paro de olhar para o Duque:
– Como que o ouriço faz isso?
– Ara! Faz.
– O espinho vai que nem flecha?
– É.
– E fura a carne?
– Vai furando. Se não tira vai indo para dentro.
– E agora?
– Agora vamos fazer o quilo. Logo é hora de dormir.
– E o Duque, pai?
– Ele sara.
– Ele não comeu nada.
            – Quando a fome apertar, ele come. Sossegue, isso passa.
            Meu pai acaba de enrolar um cigarro, vamos para a varanda. Ainda olho o Duque; ele abre os olhos, se bate de leve – uma tremura.


Um comentário:

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